domingo, 26 de agosto de 2012

A ELEIÇÃO DE BARRABÁS



*Por Daniel Albuquerque.


O quadro é deveras chocante porque realça a imprudência do cônsul Pôncio Pilatos que reconhecendo a inocência de Jesus, mas acovardado ante a massa enfurecida, fez uso da prática democrática para transferir a essa plebe tendenciosamente liderada, a responsabilidade da absolvição ou condenação que só a ele cabiam. 

A explicação acima tem como alvo aqueles que não creem que Jesus veio ao mundo, na condição de filho unigênito de Deus para que todos que Nele creem não pereçam, mas tenham a vida eterna.

Se pesquisarmos cuidadosamente a existência humana e histórica do Filho de Deus observaremos que em quatro anos, no máximo, Jesus Cristo cumpriu a missão que o Pai lhe confiara, pregando os fundamentos da sua doutrina seguido pela multidão dos seus discípulos, falando ao rico e ao pobre, à pecadora e ao inocente, ao publicano como ao fariseu, ao estrangeiro como ao autóctone, ele prosseguiu intemerato na sua tarefa de transformação e redenção moral, com a diligência e a ânsia de quem prenunciava o seu próximo fim. 

Jesus falou da beira de um barco, de uma colina, nos frequentes repastos para os quais fora convidado, nas sinagogas frequentadas pelos fiéis e pelos comentadores da lei com os quais discutiu a sua interpretação, tendo vencido a todos com a Sua eloquência direta e tão diversa da dialética artificiosa e sofística por eles empregada. Para todos tinha a palavra adequada e mesmo quando foi surpreendido por alguma pergunta capciosa, demonstrou dotes de improvisação verdadeiramente inexcedíveis. E notadamente quando se aproximou o último passo da sua existência humana, Ele foi o Verbo iluminado e o instrumento vivo e humano de uma Nova Ideia.


Diante de todos estes atributos divinos, era mais do que esperado que Ele prejudicasse interesses escusos, levando levianos líderes a jogar a massa mal orientada contra ele. Não teria sido isso fruto dos desígnios de Deus que criou aquele triste momento para mostrar à humanidade que o povo mal liderado não pensa como os indivíduos pensam e, ainda, os detesta se recusarem ser assimilados pela turba para se transformarem em massa de manobra sobre a ação de espertalhões? 


Todas as respostas de Jesus às indagações de Pilatos soaram como se Ele pedisse sua própria condenação e a mais importante Ele não respondeu: ”O que é a Verdade”? (João 18:38).


Para mim, a verdade é um ponto de vista, por isso, não defino e nem concordo inteiramente com definições da verdade, pois me parece impossível se poder alcançar uma certeza sobre a definição do oposto da mentira. Porque "não há fatos eternos, como não há verdades absolutas." (Friedrich Nietszche).


Escrevi isto com a intenção de responder a mim mesmo: Já faz 2.000 anos que o povo só escolhe ladrões para serem seus governantes? Ao contrário do que afirmou Nietszche, será este um fato eterno? Haverá nessa imagem ardilosamente pensada e elaborada, uma verdade absoluta? Ou como terminava a samba-choro de Manezinho Araújo, do meu tempo de jovem: “Há sinceridade nisso?

                                           
                                                    

*Daniel Albuquerque foi prefeito do Município de Tapauá em 4 oportunidades, além de ser um grande poeta e historiador.

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