*Por Daniel Albuquerque.
O quadro é deveras chocante porque realça a imprudência do cônsul Pôncio Pilatos que reconhecendo a inocência de Jesus, mas acovardado ante a massa enfurecida, fez uso da prática democrática para transferir a essa plebe tendenciosamente liderada, a responsabilidade da absolvição ou condenação que só a ele cabiam.
Se pesquisarmos cuidadosamente a existência humana e histórica do Filho de Deus observaremos que em quatro anos, no máximo, Jesus Cristo cumpriu a missão que o Pai lhe confiara, pregando os fundamentos da sua doutrina seguido pela multidão dos seus discípulos, falando ao rico e ao pobre, à pecadora e ao inocente, ao publicano como ao fariseu, ao estrangeiro como ao autóctone, ele prosseguiu intemerato na sua tarefa de transformação e redenção moral, com a diligência e a ânsia de quem prenunciava o seu próximo fim.
Jesus falou da beira de um barco, de uma colina, nos frequentes repastos para os quais fora convidado, nas sinagogas frequentadas pelos fiéis e pelos comentadores da lei com os quais discutiu a sua interpretação, tendo vencido a todos com a Sua eloquência direta e tão diversa da dialética artificiosa e sofística por eles empregada. Para todos tinha a palavra adequada e mesmo quando foi surpreendido por alguma pergunta capciosa, demonstrou dotes de improvisação verdadeiramente inexcedíveis. E notadamente quando se aproximou o último passo da sua existência humana, Ele foi o Verbo iluminado e o instrumento vivo e humano de uma Nova Ideia.
Diante de todos estes atributos divinos, era mais do que esperado que Ele prejudicasse interesses escusos, levando levianos líderes a jogar a massa mal orientada contra ele. Não teria sido isso fruto dos desígnios de Deus que criou aquele triste momento para mostrar à humanidade que o povo mal liderado não pensa como os indivíduos pensam e, ainda, os detesta se recusarem ser assimilados pela turba para se transformarem em massa de manobra sobre a ação de espertalhões?
Todas as respostas de Jesus às indagações de Pilatos soaram como se Ele pedisse sua própria condenação e a mais importante Ele não respondeu: ”O que é a Verdade”? (João 18:38).
Para mim, a verdade é um ponto de vista, por isso, não defino e nem concordo inteiramente com definições da verdade, pois me parece impossível se poder alcançar uma certeza sobre a definição do oposto da mentira. Porque "não há fatos eternos, como não há verdades absolutas." (Friedrich Nietszche).
Escrevi isto com a intenção de responder a mim mesmo: Já faz 2.000 anos que o povo só escolhe ladrões para serem seus governantes? Ao contrário do que afirmou Nietszche, será este um fato eterno? Haverá nessa imagem ardilosamente pensada e elaborada, uma verdade absoluta? Ou como terminava a samba-choro de Manezinho Araújo, do meu tempo de jovem: “Há sinceridade nisso?

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